Estado de São Paulo 19/02/2013

Relíquias saem dos bastidores
Nova Central Técnica vai expor mais de 30 mil peças do acervo do teatro carioca


A arte que se esconde atrás das cortinas do Theatro Municipal do Rio deixará os bastidores para assumir papel de protagonista na nova Central Técnica de Produções (CTP) do teatro. Em um imenso armazém na zona portuária do Rio, mais de 30 mil peças de acervo, entre figurinos, partituras, cenários e adereços, serão expostos ao público a partir do próximo ano.

Há oito meses em obras, na fase de restauro do galpão construído em 1918, o prédio da Central abrigará também a escola de dança do Municipal e um centro de formação profissional, para técnicos que atuarão na produção cenográfica de espetáculos. Orçado em R$ 75 milhões, o projeto foi apelidado de “parque temático do clássico”, pela diretora do Municipal, Carla Camurati.

Na visitação, o público verá partituras originais de Heitor Villa-Lobos, o piano usado por Chiquinha Gonzaga, além de figurinos de Cacilda Becker, além de esculturas e adereços de montagens históricas. “Aquilo que está atrás da cena também é um espetáculo, e tudo estará disponível. Não há no País um espaço como este”, diz Camurati.

 

Parcerias. O local abrigará biblioteca, midiateca com o acervo digitalizado do teatro, cafés e restaurantes. Parte dos recursos para o projeto, R$ 25 milhões, foi garantida por um financiamento do BNDES. Outros R$ 20 milhões serão investidos pelo próprio teatro e o restante, obtido por intermédio de parcerias.

Na área de consultoria, um dos parceiros é o teatro Alla Scala, de Milão. Desde o ano passado, gestores e coordenadores italianos ajudam na concepção arquitetônica e na definição da didática para os cursos de formação profissional.

É a primeira vez que a tradicional casa de ópera da Itália, inaugurada em 1778, realiza consultoria no Brasil. A escolha aconteceu após uma pesquisa coordenada por Gringo Cardia entre centrais técnicas de espaços semelhantes ao Municipal.

A proposta é criar metodologia própria, com conteúdos e oficinas integradas. “Existe um bom profissionalismo e uma atitude proativa para alcançar altos padrões de qualidade e com um empenho constante e característico”, avalia Franco Melgrande, um dos consultores italianos que visitou a Central no último mês.

 

Defasagem. A Central foi criada em 1977, em Inhaúma, no subúrbio do Rio e já foi a principal produtora cenográfica do teatro carioca, alugando cenários e figurinos para diversos espetáculos. Nos últimos anos, entretanto, sentiu a defasagem de equipamentos e profissionais.

No auge, eram 350 artesãos, entre costureiros, peruqueiros, aderecistas e escultores. Hoje são 50, e faltam técnicos em informática para coordenar os novos equipamentos de luz e som. “Essa situação tem mais a ver com o olhar sobre a área do que com falta de dinheiro”, afirma Carla Camurati. A localização era outro problema. Uma favela não pacificada cresceu ao lado da Central. “Há uma limitação. Não podemos trabalhar após as 16 horas”, diz ela, ainda.

Com os novos cursos, a Central espera retomar seu papel como “força motriz” do espetáculo no País. “Não é um curso autista, em que o profissional não tem trabalho. A gente tem clareza que há mercado além do Municipal”, garante Ana Luisa Lima, diretora da nova CTP.