Revista O Globo 25/11/2012

Rio de Janeiro, Domingo, 25 de Novembro de 2012 – Ano IX – Nº435

 

Jaz ensacada em armários ou enfileirada em galpões, protegida precariamente da poeira e dos cupins, parte da história dos grandes espetáculos do Rio. Coadjuvantes da mágica que envolve cada apresentação no Teatro Municipal, figurinos delicados de balés como o “La fille mal gardée”, cenários épicos de óperas como “La traviata” e tutus estruturados em cabides compõem o acervo guardado na Central Técnica de Produções (CTP), um galpão incrustado na Favela do Guarda, em Inhaúma, erodido por três enchentes nos últimos dez anos. São mostras das 60 mil peças, divididas também com o Museu do Teatro, que agora ganharão protagonismo: serão expostas numa nova central, batizada de Fábrica de Espetáculos, um espaço de produção de talentos para apresentações no coração da Zona Portuária do Rio, em ritmo frenético de construção há seis meses. As veias do Municipal serão expostas ao público neste local, já apelidado pela presidente da Fundação Teatro Municipal, Carla Camurati, de “parque temático do clássico”.

É uma investida para reabilitar a central, que, no começo dos seus 35 anos de história, já forneceu costureiros, peruqueiros, aderecistas, escultores e cenógrafos para produções por todo o país. Eram 360 funcionários. Hoje, não passam de 50. A parceria com o cenógrafo Gringo Cardia, dono de uma expertise cultivada nos dez anos em que toca a ONG Spectaculu, ajudou a formatar o conceito dessa nova escola. Os 22 cursos variam entre a costura e a produção executiva.

É parte da cruzada montada pela equipe de Carla Camurati para driblar a carência extrema de mão de obra no teatro, que atinge, além da área técnica, a orquestra, o balé e o coro da casa. Os funcionários iniciaram, na semana passada, uma ampla campanha nas redes sociais em prol de um concurso público — cujo pedido está desde junho perambulando pela burocracia das pastas do estado. A reclamação central: 112 dos 350 postos de trabalho estão vagos. A gestão de Carla também foi abatida por queixas a respeito da baixíssima frequência de óperas no teatro. Em um ano, apenas uma esteve em cartaz (“Rigoletto”, de Verdi). No próximo dia 28, estreia “A Viúva Alegre”, de Franz Lehár.

A diretora atribui à tragédia que se abateu sobre prédios vizinhos ao Municipal, em janeiro, e ao aumento do ICMS o ritmo lento de espetáculos na programação. Enquanto isso, segue sendo montado o cenário da nova central.

— Os artistas são valorizados pelo público que assiste a eles. Normalmente as áreas técnicas ficam encafifadas em buracos, em oficinas, escondidas de tudo. A gente está com nossa estrutura deficiente. Capenga na área de palco, capenga na área de central de produção. Antes ela produzia para todo mundo. Era uma força motriz que agregava receita também ao teatro — diz Carla.

— É preciso tratar o técnico como um ser criativo. Tão atuante quanto um diretor — faz coro Gringo.

Pois serão eles, os técnicos muitas vezes anônimos, os agentes mais essenciais desse novo projeto. Serão treinados por profissionais do La Scala, de Milão, a passar adiante o que a prática do dia a dia os ensinou a dominar.

— A maioria dos professores da nossa escola, que tem uma população de 1.100 pessoas, é formada por profissionais do teatro. No Brasil, ajudaremos a formatar a didática das aulas e a orientar o funcionamento das salas de aula e oficinas — explica, em entrevista por Skype, Luisa Vinci, diretora da Academia do La Scala, onde os cursos são pagos, a um custo 50% menor do que o das outras escolas.

Umberto Bellodi, que veio ao Rio para um workshop em torno do projeto, em junho do ano passado, dá seu veredito:

— A primeira impressão é que o material humano é muito bom. O que falta é a didática, é organizar o conhecimento.

Quando pronta a Fábrica de Espetáculos, técnicos, turistas, curiosos, estudantes desfilarão pelo edifício Armazéns Paranapanema, na Avenida Rodrigues Alves, uma preciosidade tombada pela prefeitura e desapropriada pelo estado no começo do ano. Na apresentação feita a oito profissionais do BNDES, em 2011, chovia a cântaros dentro do galpão de 3.500 metros quadrados, que conquistou, à primeira vista, o arquiteto Márcio Kogan, do escritório paulistano Studio MK27, autor do projeto:

— Eu preferia pegar um local totalmente destruído, porque tem um charme. O espaço é emocionante. É interessante fazer uma obra como essa, que revive um lugar agonizante.

Kogan viu nas vigas carcomidas, no teto aberto e nas paredes descascadas terreno fértil para o desafio: incorporar a história de 94 anos do galpão à proposta de um espaço coletivo e turístico. E o lugar parece mesmo ter uma vocação para as artes:

— Durante anos fiz várias filmagens nele. Tenho clipes históricos aqui, de Bethânia, de Daniela Mercury... — lembra Gringo.

A equação financeira para manter o parque temático funcionando inclui a possibilidade de parceria com restaurantes e livrarias, que ocupariam a área de convivência. A central, prevê o projeto, produzirá ainda cenários e figurinos para o mercado teatral.

O soturno e decadente prédio da Polinter, logo ao lado, também integra o Paranapanema (“Sem nenhuma característica do prédio original”, ressalta a secretária estadual de Cultura, Adriana Rattes). O prédio de oito andares, onde hoje funciona a 1ª DP (Praça Mauá) e a Corregedoria Interna da Polícia Civil, vai ser demolido em dois meses, é o que garante Carla. A corregedoria deve seguir para o prédio da Polícia Civil, na Rua da Relação, no Centro. A 1ª DP ainda não tem destino. A carceragem já foi transferida para o Grajaú, em janeiro de 2006. O espaço será um palco-escola, com ensaios abertos, expondo uma “radiografia dos espetáculos”, na definição de Gringo.

Há três anos em gestação, o projeto da nova central já tem adesões consistentes. O apoio do BNDES virá em duas parcelas. A primeira, de R$ 12,8 milhões, já saiu. Está sendo usado nas obras emergenciais e de restauro do prédio. A segunda, de R$ 12,1 milhões, deverá sair no ano que vem. O complexo inteiro custará R$ 75 milhões. O teatro vai entrar com R$ 20 milhões.

— Nesse projeto a gente encontra elementos alinhados com a estratégia do banco. Ali, o projeto vai gerar um impacto positivo em todo o corredor cultural da região do Porto. E tem uma questão educacional, que despertou nossa atenção — explica Maurício dos Santos Neves, superintendente da Área Industrial do BNDES.

A ideia de formar uma nova safra de profissionais e, ao mesmo tempo, abrir o acervo para visitação surgiu, diz Carla, logo depois da conclusão da obra do teatro, que durou um ano e oito meses. Isso foi no final de 2009.

— Quando eu vi que consegui concluir... Eu dizia: meu Deus, como consegui fazer isso. Só pensava que precisava remontar o teatro inteiro. E passamos a ter tempo para nos ocuparmos com a gestão da fundação como um todo. Era o momento de o teatro renascer — conta Carla.

— Ali no Porto, um espaço cultural aberto à visitação pode ser uma boa forma de entender como se produz espetáculo. Além disso, vai contribuir para a revitalização da área, do ponto de vista cultural. Vai ser um núcleo para atrair atividades culturais para a região — completa a secretária Adriana Rattes.

Entre as preciosidades que estarão expostas, estão o piano de Chiquinha Gonzaga, o figurino de Cacilda Becker, maquetes de cenários, partituras e estudos especiais de pintura feitos por Eliseu Visconti, decorador do Municipal, responsável pelos painéis do foyer do teatro, apontados como obra-prima da pintura decorativista no Brasil.

— São coisas que ficaram encafifadas em um museu — diz Carla.

É tenso o dia a dia dos funcionários da CTP em Inhaúma. O horário de fechamento da rua, logo no acesso à Favela do Guarda, é determinado pelo tráfico. Colados às paredes da central, foram construídos barracos, há cerca de três meses.

Enquanto aponta para as fotos da central técnica tiradas há cinco anos, quando assumiu a direção do teatro, Carla explica as limitações do espaço. A imagem mostra parte do figurino que se perdeu depois da enchente de 2000, a mais grave que se abateu sobre a instalação.

— O Ciro (Pereira, diretor da Central) salvou muita coisa, antes que se perdesse tudo. Essa foto não existe mais, graças a Deus. Senão a gente nem teria acervo para botar em exposição. Era caótico. A área do CPT está no coração de uma comunidade que ainda não está pacificada, que a partir de 15h não se pode passar. E os funcionários da casa tinham medo. Precisava de fato de um projeto maior, que juntasse tudo ao mesmo tempo, de uma economia criativa que gerasse fonte de recursos para o teatro.

A opção por construir um novo espaço, com ambições turísticas e apto a oferecer mão de obra a um mercado carente, é parte da estratégia da presidência para a fundação.

— Quando peguei o teatro, tudo nele estava deteriorado. A recuperação desse núcleo técnico é parte do objetivo que a gestão tem. Não podemos nos preocupar exclusivamente com programação. Isto é uma fundação, mais do que um teatro — ressalta a presidente.

Um gigantesco anjo cinza de isopor, da “Tosca”, de Giácomo Puccini, esculpido em 1978, convive com o pano de fundo do cenário de “Copélia”, que ficou em cartaz no Municipal de 27 de outubro a 7 de novembro passado. Visões suntuosas como as de um barracão de escola de samba. E a logística é parecida: terminados os balés e espetáculos, as peças gigantescas desfilam em caminhões pelos 14 quilômetros que separam o Municipal da CTP de Inhaúma.

— A central técnica foi criada para ser um lugar que ofereceria mão de obra a todos os teatros do estado. Sempre teve um papel importantíssimo para fornecer figurino e formar pessoas que trabalham com produção. Com o passar dos anos, por problemas sucessivos, foi se esvaziando. O mais importante, com esse projeto, é a ideia de criar uma nova geração de profissionais — comemora a secretária de Cultura.

Há dois anos, o acervo vem sendo catalogado. Até agora, estão descritos os figurinos de 72 balés e de 47 óperas. Só o de “Dom Quixote”, de Jules Massenet, são 300 peças. O processo é complexo: só “O Quebra-Nozes”, de Tchaikovsky, tem três figurinos, recentes e antigos. A história está também nas prateleiras do segundo andar do galpão, onde ficam empilhados livros de ponto do teatro desde 1928.

Na área externa, estruturas de madeira, armários e esculturas já desgastadas pelo uso aguardam pelo destino iminente: serão levadas por caminhões da Comlurb como lixo extraordinário. Os escombros do espetáculo em muito lembram as imagens do pós-carnaval das escolas de samba do Rio.

Em outra sala, estão as maquetes das principais óperas encenadas no Municipal. E desenhos feitos pela produção. Entre eles, uma planta de 1979 de “Rigoletto”. É da mesma ópera o pano que ilustra a foto ao lado, recém-chegado do teatro.

Os tutus usados pelas bailarinas em “Dom Quixote”, dispostos em cabides, montam uma elegante estrutura — apelidada de tchutchuzeira —, hoje longe dos olhos do público.

— Esse aqui é o cenário do “La Bohéme” (de Puccini), aquele é de “A Viúva Alegre”, mais adiante está o cavalo do “Rigoletto”.

Quem conta é Carlos Alberto Bessa, de 56 anos, há 25 contrarregra e pintor do Municipal. Agora ele também é encarregado de aplicar veneno (“agora vamos comprar mais dez litros”), um ingrediente na luta cotidiana contra os malfadados cupins nos salões onde estão abrigados cenários, alegorias, móveis e adereços de espetáculos guardados desde os anos 70 na central de produção. Pelo chão do galpão, é comum ver a poeira característica da ação dos bichinhos.

Bessa derrama dados de um arquivo vivo do acervo.

Autodidata, ele é uma estrela dos bastidores: trabalhou por sete anos no “cozinha” do palco do teatro. Mas guarda o desejo de ter uma visão mais ampla da que as coxias impõem:

— A gente se bitola em produzir, e acaba esquecendo a parte cultural. Nos tornamos, no fim das contas, fazedores de cenário. As pessoas em volta, diante do palco, não têm a menor ideia de que estamos ali — diz Bessa, que se orgulha de ter ficado cerca de um mês ajudando a pintar o pano de palco de “A Bela Adormecida”, de Tchaikovsky.

De boy a diretor de palco do Municipal, em 31 anos. Sérgio Santos coordena as equipes de cenário, som, projeção de vídeo, todo o aparato em torno do palco. A relação com os espetáculos começou há 28 anos, ao ser flagrado pela então chefe, Aniela Jordan, olhando admirado para o palco. Abandonou, então, o curso de Engenharia e seguiu rumo ao mundo que o encantou.

— Eu tenho conhecimento. Agora preciso saber como ensinar, com começo, meio e fim — diz, logo depois de montar a concha do palco para a apresentação da orquestra, no último fim de semana.

A escola do cenógrafo Sérgio Marimba foi o carnaval. Aos 16 anos, ao concluir o antigo Segundo Grau, foi trabalhar com o (falecido) carnavalesco Fernando Pinto, da Mocidade Independente de Padre Miguel. É do espetáculo anual, ele diz, que saíram os melhores profissionais do mercado hoje. Mas a falta de profissionalização de grande parte das escolas de samba levou também a uma depreciação da mão de obra técnica que orbita em torno do universo do espetáculo.

— Ali foi minha escola de arte. Me especializei sozinho. Eu ia para o bastidor dos espetáculos, dissecava tudo — diz Marimba, hoje com 53 anos.

Ele trabalha como freelancer para o Municipal, expediente fartamente utilizado pelo teatro.

— Os profissionais estão se perdendo. Por isso a nova central técnica é muito bem-vinda — ressalta Marimba.

Cada bailarina do Municipal tem trancinhas, apliques e cabeleiras próprias, um kit individual produzido pela peruqueira Divina Lujan Soares. Quando chegou ao Rio, há 34 anos, vinda do Instituto de Ensino do Colón, em Buenos Aures, onde estudou por quatro anos, Divina sonhava montar uma escola para formar técnicos em teatro no Brasil. Por lá, ela aprendeu história da arte, iluminação, cenografia. E mais do que tudo: a ter a visão global do espetáculo. Nas óperas, ensina, a peruca dos solistas tem que ser leve. Todas precisam ser feitas sob medida.

— Nunca caiu uma peruca minha em espetáculo — orgulha-se.

A especialidade de Divina só se encontra no teatro lírico. Sua habilidade já foi usada em figurinos de novelas e em escolas de samba. Ela trabalhou com a carnavalesca Rosa Magalhães por 30 anos.

— Estou prestes a me aposentar. Tenho que passar meu legado para outras pessoas — conta ela, que batizou seu filho mais velho com o nome do protagonista de “La Bohème”: Rodolfo.