Jornal O Globo 22/11/2012

Rio de Janeiro, Domingo, 22 de Novembro de 2012 – Ano IX – Nº432

 

Polêmica do píer em Y chega às universidades
Professores de arquitetura criticam impacto que projeto terá na paisagem da Zona Portuária

A polêmica em torno dos impactos da construção de um píer em formato de Y entre os armazéns 2 e 3, na Zona Portuária, alcançou o meio acadêmico. Professores e diretores de departamentos de arquitetura e urbanismo das principais universidades do Rio entraram no debate e avaliam o projeto da Companhia Docas como inapropriado.

— O projeto causou estranheza a todos que trabalham na área do urbanismo, por ser incoerente com tudo que está sendo desenvolvido naquela região. Pelo que me parece, todos os setores têm restrições a ele. Sem dúvida, a movimentação de embarcações no píer vai sujar a paisagem numa área que, com muito esforço, está em processo de reconfiguração para melhor — avalia a diretora da Faculdade de Arquitetura da UFRJ, Denise Pinheiro Machado.

Ela ressalta ainda possíveis impactos ao projeto do Museu do Amanhã (de autoria do arquiteto Santiago Calatrava), que estará a apenas 500 metros do píer em Y:

— Um dos interesses ao fazer uma obra de arquitetura diferenciada naquele ponto era dar destaque à área. Calatrava foi bastante sensível a esse aspecto, ao criar uma edificação não muito alta, aproveitando o espaço horizontal. Os navios, por sua vez, têm altura considerável e serão uma interferência brutal na paisagem.

O Museu do Amanhã será erguido no Píer Mauá. Serão cerca de 30 mil metros quadrados, com jardins, espelhos d’água, ciclovia e área de lazer. O prédio terá 15 mil metros quadrados e arquitetura sustentável. Segundo a diretora da UFRJ, a polêmica em torno do píer em Y ganhou as salas de aula, e o projeto vem sendo debatido entre os professores da universidade. Professora do Programa de Pós-Graduação em Urbanismo (Prourbe) da instituição, Lucia Costa tem opinião semelhante à de Denise. Para ela, o projeto do novo píer é incoerente com a retirada do Elevado da Perimetral. A demolição teve início no último dia 22, quando uma das rampas de acesso veio a baixo.

— Tira-se a Perimetral e se coloca outra no lugar. Os navios vão obstruir a paisagem e ferir a preservação da fachada marinha no ponto — opina Lucia, para quem o projeto não foi discutido devidamente antes da aprovação pela Docas.

Para Manuel Fiaschi, professor de arquitetura e urbanismo da PUC-Rio, é preciso investir em equipamentos para o turismo, mas não se pode levar em consideração apenas a questão técnica ou o interesse de quem vai desembarcar dos transatlânticos.

— Essa é uma área da cidade que está sendo tratada de uma forma especial e não pode, por causa do interesse de um setor, ser tão prejudicada. Teremos o Museu do Amanhã, que vai ficar um espetáculo, e um barco do triplo do tamanho do lado? A paisagem carioca virou Patrimônio da Humanidade, tem que ser levada a sério — diz Manuel.

Arquiteto: solução simplista

Para Gerônimo Emílio Almeida Leitão, professor da Escola de Arquitetura da UFF, existe um consenso entre urbanistas quanto aos prejuízos que o projeto causará na região. Ele afirma que o píer em Y é uma solução simplista:

— O projeto considerou apenas a possibilidade de atracar o maior número de embarcações no menor espaço. É um equívoco completo. Deviam buscar uma solução mais sofisticada, compatível com as intervenções que visam a requalificar um espaço que foi comprometido pela construção da Perimetral. Ainda não encontrei um só profissional que concorde com o projeto.