Jornal O Globo Tijuca 07/03/2013

Rio de Janeiro, Quinta-feira, 7 de Março de 2013 – Nº1.613

Renovação urbana
Iniciativa privada arregaça as mangas e revitaliza sobradosprotegidos na região do Estácio

(Páginas 6 a 8)


Ao percorrer as ruas do Estácio – bairro que leva o nome do fundador da cidade – e da Cidade Nova, o pedestre pode achar, por um instante, que está no século XIX ou no começo do XX. Os diversos palacetes e sobrados construídos com incentivo de dom João VI e depois na gestão do prefeito Pereira Passos (1902-1906) permanecem lá. Moradores, comerciantes e admiradores do bairro estão revitalizando essas construções, com recursos próprios.

O comerciante Marcelo Leal, de 46 anos, mora na Rua Néri Pinheiro desde que nasceu. Já renovou a sua casa, a do pai e a de uma prima. Todas na mesma via. Para cada uma, foram seis meses de trabalho, a um custo de R$ 150 mil.

– Quero valorizar os meus sobrados. Incentivo outras pessoas a fazerem o mesmo, para deixar o nosso bairro mais charmoso.

Na mesma rua, percebendo a chegada de grandes empresas ao local, os donos do restaurante Filet e Folhas inauguraram uma filial em abril de 2012. As obram demoraram dois anos.

– Aqui funcionava uma oficina mecânica, não era um sobrado. No entanto, havia a exigência de se construir a fachada com estilo antigo. Ficou ótimo, recebemos elogios – diz a gerente Viviane Oliveira.

O escultor e arquiteto português Ascânio MMM comprou há quatro anos três sobrados na Avenida Salvador de Sá, onde tem ateliê. Ao todo, com o apoio de uma empresa de construção, demorou dois anos para finalizar as obras. Morador do Leblon, ele diz que escolheu o lugar porque tem uma afinidade muito grande com o bairro.

– Quando cheguei de Portugal, em 1959, eu me instalei aqui. Morei durante quase uma década. No Estácio, eu me sinto bem.

Ele afirma que quer dar sua contribuição para a História:

– Reformar o passado é muito interessante. É preciso que as gerações futuras saibam do valor dessa região. Imagine como ficaria bonito se todas essas construções fossem renovadas.

Uma série de regras deve ser seguida, já que os imóveis são parte da Área de Proteção do Ambiente Cultural (Apac) da Cidade Nova e Catumbi, criada em 1991. Entre outras exigências, toda a estrutura da fachada original deve ser mantida, incluindo a cor, os adornos e o telhado.

O Instituto Rio Patrimônio da Humanidade (IRPH), responsável pela autorização e acompanhamento das obras, conta com uma equipe de engenheiros para fazer as vistorias. Os proprietários têm isenção de IPTU por dez anos, desde que o imóvel mantenha as características e fique em bom estado de conservação.

O arquiteto e historiados Nireu Cavalcante, porém, faz ressalvas ao incentivo fiscal:

– Eles deveriam analisar cada caso. Dar à classe média melhores condições de subsidiar as obras. Aos mais pobres, deveriam oferecer financiamento a custo zero. Isentar de IPTU não faz a diferençam já que esse imposto é muito barato na região. A obra de restauro é muito cara e requer muitos detalhes.

 

Maioria dos imóveis está malconservada


E quem não tem recursos para reformar os imóveis de acordo com as regras da Apac faz o quê? Nada. A maioria das construções da região está em péssimo estado de conservação. Além disso, problemas de infraestrutura como falta de água e de luz constante, vazamento de esgoto e diversas gambiarras são normais nas ruas do Estácio e da Cidade Nova. Edson Ferreira, morador da Rua Laura de Araújo, reclama:

– O estado das construções é lamentável. Será preciso um acidente sério para que as autoridades se movam? – diz Ferreira, criticando o sistema de esgoto. – É do século retrasado.

O arquiteto e urbanista Manuel Fiaschi apoia um projeto de revitalização no bairro.

– Acredito que o Estácio tem tudo para se reerguer, com a chegada das UPPs e da valorização da Cidade Nova. A região é bem central, de boa localização. Não basta também recuperar os sobrados e deixar de lado a infraestrutura. Elas têm que crescer juntas — diz ele.

A Secretaria municipal de Habitação afirmou, por meio de nota, que planeja recuperar os sobrados da região. O projeto está em fase de elaboração e seu conteúdo não pode ser divulgado.