Jornal O Globo 18/05/2013

Teleférico em favela tem patrocinador

No metrô, governador proibiu exibição do nome de empresa em estação

A ordem dos fatores não altera o produto, certo? Bem, depende. Vetada pelo governador Sérgio Cabral, a proposta do Metrô Rio de oferecer a marcas a possibilidade de pôr seus nomes à frente da alcunha original das estações — por exemplo: Sua Marca/Cinelândia — causou polêmica. Mas, no teleférico do Complexo do Alemão, Zona Norte da cidade, duas estações exibem sobrenomes patrocinados: Bonsucesso/TIM, de integração com o trem, e Alemão/Kibon. A diferença é que os nomes das marcas vêm depois. E parece que não incomodaram ninguém.

Para o governo do estado, “como podemos constatar no Teleférico, nenhuma estação mudou de nome”. De acordo com a nota, “é permitido explorar comercialmente uma marca, desde que não haja mudança do nome da estação”. Já a SuperVia, responsável pela operação do teleférico, respondeu que as estações patrocinadas são uma prática legal. O GLOBO questionou se o governo acredita que pôr a marca antes ou depois do nome da estação faz alguma diferença, mas não houve resposta.

A TIM afirmou que cumpre todas as regras e leis vigentes. Já a Kibon esclareceu que ter o seu nome em uma das estações é apenas uma das ações da empresa na comunidade, dentro de um pacote de atividades de cunho social promovidas para os moradores do Complexo do Alemão. A marca também “envelopou” várias gôndolas com seu nome — por isso, grande parte dos bondinhos é vermelha.

— Tenho pouca simpatia por essa postura de colocar nomes de marcas em espaços da cidade. O nosso dia a dia é cercado por lugares por onde passamos. São lugares que fazem parte da nossa história, da história da cidade. Esses nomes fazem parte da vida das pessoas, acabam virando marcos urbanos importantes. E é simplesmente errado que eles sejam associados a uma ideia comercial — acredita Manuel Fiaschi, arquiteto, urbanista e professor da PUC-Rio. — Acho que o ideal é que estação de teleférico, ponto de ônibus e qualquer local dessa natureza sejam livres de propaganda. Você está colocando publicidade em algo que não merece, que não admite essa função. Acho que isso desvaloriza os lugares, a cidade. É artificial. É ruim para a cidade ter que ser lembrada por nomes de empresas e ruim para as pessoas lembrarem dela assim.

Marca com papel social

Para Adriana Figueirola, doutora em Comunicação pela UFF, especializada em partidos políticos, o governo vê o metrô e o teleférico de formas distintas. O metrô seria um espaço público, onde uma propaganda desse tipo poderia ser negativa para o governo. Já o teleférico é tratado mais como um equipamento turístico em área pobre, onde as marcas têm um papel ligado à responsabilidade social. O teleférico, inclusive, nem é fiscalizado pela agência reguladora.