O Globo 24/03/2014

Hotel Bragança já tem data para voltar a integrar paisagem da Lapa

Prédio em estilo eclético entra em obras para abrigar complexo hoteleiro, que deve ficar pronto em 18 meses

RIO — Tendo os olhos de quem circula pelo coração da Lapa como testemunhas, um exemplar da arquitetura remanescente do Rio Antigo se transformou em ruínas ao longo das últimas décadas. Do Grande Hotel Bragança, construção de 1906, restou apenas a fachada, em estado deplorável. Mas os tempos de decadência terminam por agora se o anúncio feito, há dias, por um grupo de investidores brasileiros e estrangeiros for cumprido no prazo prometido: dos escombros surgirá, em 18 meses, um complexo hoteleiro de três e quatro estrelas, cujo projeto prevê a restauração total do antigo prédio, de estilo eclético, integrante do Corredor Cultural do Centro.

O projeto, antecipado por Ancelmo Gois, começa a sair do papel. Operários já fazem o escoramento de paredes. O imóvel, de cinco pavimentos (com pé-direito duplo), abrigará 14 unidades de luxo. Entre as duas cúpulas do telhado (de madeira e recobertas com folhas de zinco), haverá terraço e bar.

— O projeto representa um momento importante para a cidade, especialmente para a Lapa, pois vai recuperar um patrimônio importante. A história do hotel é interligada à do Rio — festeja o presidente do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade, Washington Fajardo.

Nos fundos do terreno será construído um anexo, de nove pavimentos, com 106 unidades e terraço. Mas esse edifício não ficará mais alto do que o imóvel antigo nem ficará geminado. A ideia é fazer um jardim entre os dois prédios.

— O anexo vai dialogar com o prédio histórico. A fachada ganhará uma marca d’água reproduzindo a frente do antigo Grande Hotel Bragança — adianta o arquiteto Manuel Fiaschi, da a+ Arquitetura, que coordena o projeto do complexo.

A reabertura do hotel, que hospedou no passado personalidades históricas (Noel Rosa e Di Cavalcanti entre elas), leva à pergunta: o nome será mantido? Os responsáveis pelo empreendimento adiantam que “Bragança” e “Lapa” devem ser incluídos. O grupo por trás da compra do hotel não fala em cifras nem divulga quem são os investidores até a escolha da bandeira que administrará o estabelecimento.

O prédio, fechado desde os anos 40, foi invadido na década de 90 e desocupado em 2010. Com uma dívida de IPTU de R$ 2,5 milhões, foi leiloado pela prefeitura.

Mas, de todo o projeto, a cereja do bolo é a restauração do prédio antigo, erguido em argamassa, estrutura em blocos de pedras e tijolos maciços. A fachada exibe adornos, janelões de madeira e serralheria. Para coordenar a missão está o engenheiro Erik von Uslar, da empresa Concrejato, de restaurações e retrofit.

— Será um trabalho artesanal. Trata-se de uma joia — derrete-se o engenheiro.